Eu olhava, pela janela do carro, o mato na lateral da estrada que segue para a cidade de Manhuaçu, passando rapidamente na frente dos meus olhos. Buscava captar algum sinal de como poderia ser o lugar para onde me levavam. O frio na barriga aumentava a sensação de não pertencimento do lugar de saída e do lugar de chegada.
Meus pais conversavam sobre quem recomendou o colégio interno e o quanto seria bom para minha educação ter horários definidos para acordar, ir à escola, fazer dever de casa, comer, brincar e dormir. Concordavam que naquele momento um colégio interno era o melhor para mim. Meu medo crescia a cada palavra e o verde horizonte não me dava nem uma pista de como era o meu destino. Bois, vacas, bezerros e cavalos pastando. Riachos, montanhas e boiadeiros. Mesmo as paisagens, comuns á estrada que eu fazia com meu pai no caminho pra roça aos finais de semana, não me acalmavam.
Pode ser por reflexo de sua própria angústia que minha mãe interrompe meu estado contemplativo e tenta tranquilizar-me, dizendo:
-Nós só vamos conhecer o lugar, tá!?
-Meu pai continuou:
-Mas você vai gostar! Viu!?
Viu o quê? Gostar do quê? Conhecer o quê?
Tive que aproveitar a "deixa" e perguntar:
-E seu eu não gostar?
Talvez, fosse melhor ficar calado porque as respostas me induziram á interpretação do momento em que viviam na relação dos dois e suas intenções a respeito do Juninho, ou seja, eu.
Meu pai pontuou:
-Você vai gostar.
Reforçando a castração.
Eu sabia que ele não era meu pai biológico e que estavam em processo de separação, mas isso não diminuía o meu respeito e amor por ele. A separação configurou uma perda que me atingiu diretamente como filho. Foi como uma bomba com um marca tempo que corre lentamente, na verdade, rapidamente mas em câmera lenta.
Com a minha percepção de tempo e espaço alterados eu buscava no verde horizonte a razão do meu medo. Foi a perder-me de vista num verde crescente e predominante, que ouvi a voz do pai me acordando para irmos à fazenda. Eu odiava acordar cedo. Ainda não gosto, principalmente por um motivo que não me atraía. Mas, ele me perguntou no dia anterior se podia me chamar e eu disse sim, então, fiquei pensando que poderia repetir e lançar um - ah, pai! Tô com preguiça! E foi aí que me lembrei da manhã tranquila da fazenda, do pão de queijo e dos biscoitos que a vó fazia no fogão a lenha. Num pulo me levantei.
-Me espera pai que já vou.
Nesse dia eu recebi minhas primeiras instruções de motocicleta. Ele me colocou pra pilotar, atendendo meu pedido insistente. Já na estrada pra roça, acelerei e direcionei a moto para a direita, nos colocando em cima de uma concentração de areia. Já é possível prever o que ocorreu. A moto derrapou e quase caímos. O que me rendeu algumas gargalhadas, uma chamada de atenção e uma retomada da pilotagem com a ajuda das suas pernas, maiores que as minhas, estabilizando a direção. Apesar de ele ter feito o trabalho braçal, eu fiquei com o mérito da retomada. Eu aprendi a pilotar uma moto. Um presente de pai.
Na fazenda eu alimentei minha memória num rico ambiente de cheiros, aromas, paladares e afetos. Pela manhã eu levava uma caneca com farinha de milho pela metade, amarelinha, para o meu avô no curral. A minha avó me entregava a caneca e eu levava por um caminho cheio de bostas do gado. Algumas ainda moles e quentes. Me desviar delas significava assumir o risco de pisar nelas. O que aconteceu algumas vezes, me levando a procurar os estercos para pisar em solo firme e subir nas cercas do curral para entregar a caneca pro meu vô. Ele dizia que era forte por causa daquele hábito. E ordenhava a vaca direcionando o leite para a caneca. Depois de enchê-la com o leite que sai na hora da teta da vaca, ele bebia tudo com uma boca boa, quase num gole. Antes de me entregar a caneca, entre o penúltimo e o último gole, ele pronunciava um comentário de praxe:
-Êh, trem bão sô!
Isso, quando ele não me pedia pra deixar a caneca pra beber mais depois. Eu voltava pra cozinha com a sensação de dever cumprido.
Ao voltar da fazenda para a casa na cidade, eu gostava de contar os "causos" para os meus amigos. Como o dia em que caí do cavalo e o dia da morte da novilha. O caso da novilha chocou os meninos. Dia triste pelo erro do meu avô que ao querer vender a novilha ouve do vaqueiro:
-O sinhô num tá venu que ela tá prenha?!
Meu avô resolve tirar a prova e diz ao vaqueiro que quem vai avaliar a "bichinha" é ele.
-Deixa que eu tiro a prova e não venderei se ela estiver prenha. Disse.
Ele nunca tinha feito esse procedimento. Normalmente era o vaqueiro que fazia. Assim decidido, eu me coloquei curiosamente atrás deles para ver. Já posicionados no curral, começou a introduzir o braço inteiro na vagina da novilha. Era perceptível o sofrimento. E estava demorado porque o vaqueiro falava:
-Ande logo cum isso sinhô. A bichinha tá sufrenu!
Ao final do parecer do meu avô, ficou entendido que a novilha não estava prenha e poderia ser sacrificada para a venda. Imagino que o dinheiro deve ter sido grandioso.
No outro dia acordei e vi que avô entristecido na cozinha durante o café. Fui em direção ao celeiro e no caminho encontrei o vaqueiro que me informou o que ele já desconfiava. A novilha estava prenha. Chegando próximo ao celeiro a vi estendida no chão, e do seu lado um feto já formado. Tirei o chapéu, fiquei olhando fixamente para o feto durante um bom tempo e perguntei para o vaqueiro:
- Posso ficar aqui?
Ele respondeu:
- Sinhôzim, se ocê quer, é Craro que pode. Mas eu tenho pra mim que isso num é pro cê. Eu sentei e ele sentou-se ao meu lado.
A viagem para o internato
A roça
A novilha e o feto
O vaqueiro
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