quarta-feira, 10 de julho de 2024

Alto Jequitibá

    Ruas estreitas. Pracinha com uma igreja no meio e mais à frente o colégio interno da cidade onde eu passara ser o mais novo morador.
    Durante minha moradia no internato eu não tinha autorização pra deixar de ser interno. Por isso, busquei soluções para resolver minha prisão integral dentro dos seus muros. Comecei a fazer aulas particulares com minha professora do primário, em sua casa, que me garantia sair uma vez por semana do internato. Pedi autorização para ir à igreja aos domingos pela manhã. Quando estava na quarta série eu aproveitava que caminhávamos em fila até a escolinha que ficava no final da rua e, desobedientemente, escapava da fila por instantes de brincadeira, ao fugir de um colega, correndo atrás dele ou pulando nos portões das casas dos outros. Sempre dei preferência aos portões que ficavam do outro lado, além de não ter muita graça ficar na fila, a casa da professora ficava do outro lado e sempre que passávamos era motivo para eu pular em seu portão e perguntar quando iríamos tomar um café. Um dia desses em que tive aula particular ela cumpriu a promessa de me fazer um café. O que descobri, também, foi que ela socava o café em casa.
    Fui conhecendo mais seu lar, andando pelos cômodos e descobrindo um quintal ao fundo no qual tinha um pedaço de tronco de madeira grosseiramente lapidada, com um formato oval em cima. Ao lado do tronco tinha um pedaço de madeira fino, cumprido, com uma ponta grossa arredondada. Perguntei o que eram aquelas madeiras e ela me disse que era o soca dor de café. Me ofereci para socar, sem saber que é necessário ter braços fortes. Definitivamente, eu não tinha força para o que o peso daquele soca dor e a necessidade de movimentos repetidos exigiam. Passados alguns minutos eu perguntei quem socava o café pra ela e descobri que morava sozinha e fazia todos os serviços da casa, incluindo socar café.  Fomos beber o café na cozinha, onde ela guardava um bule miúdo. Parecia peça de decoração, mas, ela utilizava como recipiente do café. A casa e os objetos revelavam seu gosto. Decoração mais artesanal, preparo manual, simplicidade e coisas miúdas. Para uma pessoa só e que, aparentemente, não recebia muitas visitas era suficiente. Cheguei a pensar no Ricardão da minha sala, aluno do internato como eu. Ele me disse que gostava dela. Ela podia namora-lo escondido pra animar mais sua rotina. Apesar de ter gostado muito da casa, eu fiquei imaginando que ficar sozinha deve ser entediante e perigoso, afinal, quem poderia defendê-la, caso invadissem sua casa?
    Passado algum tempo ela começou a ir muito arrumadinha, repetindo frequentemente a mesma calça jeans. O Ricardão ficava louco com essa calça jeans muito apertada que ela usava. Sempre chamei a atenção do Ricardo para que parasse de fazer piadas dela e por isso, também, nunca o recomendaria como namorado. Mas, assumi uma postura mais flexível depois de visitar sua casa e observando melhor suas reações às brincadeiras do Ricardo. Havia um "permitir-se" nela, num leve sorriso lateralizado e um andar mais insinuante. Incluindo algumas idas, demoradas, dele ao banheiro no momento em que ela me deixava explicando matéria no quadro e saia da sala de aula. O Ricardo, do jeito que era, não perderia a oportunidade de conhecer o bule da professora e suas coisas miúdas. E, diferente de mim, ele tinha braços pra socar o café com aquele soca dor. Por causa de certo confinamento vivido pelos dois, sendo ela em sua casa e ele no internato, pensei que um relacionamento entre eles poderia ser um bem recíproco. Apesar de ser proibido que internos namorassem.
    Em função de um confinamento tão cheio de regras, o desejo de fuga era comum nos internos. Um aluno que morava a 14 anos lá me confessou que já tentara fugir inúmeras vezes, mas, pelo fato de o diretor conhecer toda a região, ele e todos que haviam tentado sempre foram pegos em alguma cidade vizinha. Quando me falou que morava a 14 anos lá, fiquei pensando nos motivos pelo qual estava ali por tanto tempo. A família não gostava dele, ele fez alguma coisa muito ruim, seus pais não tinham tempo pra cuidar do filho. Por isso, perguntei sua idade e segundo os meus cálculos, quando chegou no colégio ele era dois anos mais novo do que eu. Comecei a ficar cada vez mais curioso em descobrir o real motivo de estar ali por tanto tempo. Como a maioria dos internos, ele não gostou das minhas perguntas e me mandou sair de perto indo jogar vôlei. Sinceramente falando, minha preocupação em saber o motivo era descobrir se ele tinha envolvimento na decisão de quem o colocou ali ou se foi uma decisão sem sua participação. Acentuou minha angústia ao pensar que eu também corria o risco de ficar ali por tanto tempo. Considerando que pessoalmente eu não havia feito nada que justificasse meu confinamento. Não enviei vídeo para ser selecionado para o confinamento como o fazem na televisão, logo, não me inscrevi espontaneamente. Depois de sondar sua história com alunos antigos, incluindo o Vice diretor, me entristeci ao ver tristeza em seus olhos e a relutância em falar sobre o assunto, resolvi deixar o segredo guardado com ele. Na verdade, talvez ele nem soubesse. Tanto tempo internado me parecia punitivo e uma não justificativa injusto.
    Eu nunca pensei em fugir. Até porque não via nenhuma possibilidade. Depois que o skatista fugiu, isso mudou. Na quadra de esportes no pátio do internato ou na pracinha, ele vivia o tempo todo em cima do skate. Numa segunda feira, quando voltamos do colégio, o comentário era a fuga do skatista. Todos se perguntavam: Como ele fugiu? Ouvi dizer que ele aproveitou o sábado que ficávamos na pracinha da cidade, ao lado do internato, e foi andar de skate. Driblando os olhares vigias ou acordado com eles, pegou a saída da cidade e entrou numa estrada intermunicipal, deslizando sobre as rodinhas do skate para bem longe. Imaginei ele andando de skate na estrada, correndo em máxima velocidade ao encontro de qualquer lugar que não fosse Alto Jequitibá. A velocidade, os carros passando ao lado do skate, ele andando ora no asfalto ora no acostamento, o vento nos cabelos ao olhar pra trás constantemente pra ver se o estavam seguindo, o barulho das rolagens. Imagens recorrentes na minha mente. Entendi porque os correios entregaram uma caixa com rodinhas novas para o skate e, também, o fato dele ficar na quadra mexendo e remexendo em seu instrumento vários dias antes da fuga. Acredito que, dias antes, ele estivesse preocupado com a estabilidade, a potência, aumentar o controle nas curvas e no deslocamento do centro de gravidade do shape para o lado de fora da curva, certamente passaria por muitas. Precisaria correr muito e se sentir estabilizado tempo suficiente para garantir que chegasse numa outra cidade. Torci para que não parasse na redondeza pois, correria o risco de algum conhecido do diretor desconfiar que se tratava de uma fuga de mais um interno e não ter sucesso. Os dias se passaram e nunca mais vi o skatista. Não se tinha notícias do final da história. Começaram rumores de que ele talvez tenha sido pego e diretamente entregue aos pais. O que é difícil de acreditar. O diretor não perderia a oportunidade de trazê-lo ao internato para que todos o vissem arrumando as malas e saindo cabisbaixo em direção ao portão de saída principal. Para corrigi-lo, infelizmente, envergonhando-o. Ouvi histórias de que esse diretor, em outros tempos, se visse alguém na quadra com a calça jeans furada, ele enfiava o dedo no buraco e puxava o tecido, terminando de rasgá-la completamente. Depois berrava aos quatro ventos: Olha sua calça toda rasgada, seu desmazelado! Ridículo! Vai trocar essa calça agora! Eu, pensando que, talvez, se tornara uma pessoa melhor, posso crer que tenha entregue o skatista aos pais sem fazê-lo passar por uma vergonha grandiosa diante dos outros internos na tentativa de mostrar quem tem poder. Quem é frágil.
    Após minha aula de piano, aproveitei o tempo que me restava antes de voltar para o internato. Motivado pela fuga do skatista e pelo perfil do nosso diretor, ao invés de voltar eu peguei uma estrada de asfalto e caminhei incansavelmente durante horas. Desconsiderei o tempo. Buscava experimentar um pouco do que acreditava ter vivido o skatista. O prazer de ser livre. Experimentar a liberdade do vento batendo no meu rosto ao andar pelo asfalto, seguindo em frente. Fui atingindo um estado eufórico onde podia gritar, pular, correr, ser expansivo, grande e exagerado. Ao final, fui imaginando que se eu fugisse, minha mãe seria chamada. Eu sabia que ela não tinha condições de vir. Quem pagava o colégio era o meu pai. Depois que minha mãe se casara com outro homem, meu pai biológico apareceu no primeiro ano de casamento em época de páscoa com dois ovos de chocolates enormes para mim e outro para minha irmã. Depois só soube notícias dele na separação da minha mãe, porque ela pediu que pagasse o colégio interno. É possível que sua aparição na páscoa tenha ligação com sua curiosidade de homem trocado. Apesar que, ela o deixou por uma traição amorosa da parte dele. Minha mãe não admitira para si retomar a vida de casada com ele depois de flagra-lo na cama com outra mulher. Por isso é difícil para mim falar com exatidão sobre quem trocou quem. Deduzi que minha mãe, para vir ao colégio interno, pediria carona a desconhecidos, como fez da última vez. Correria altos riscos para uma mulher jovem, bonita, mãe e solteira. Decidi voltar. Não queria ser um problema pra ela e nem a colocar em tamanha vulnerabilidade.
   
No internato era uma história embolada na outa outra.

O skatista
O piquenique no topo da montanha.
A caminhada pensando em fugir.

O Internato

   Eu olhava, pela janela do carro, o mato na lateral da estrada que segue para a cidade de Manhuaçu, passando rapidamente na frente dos meus olhos. Buscava captar algum sinal de como poderia ser o lugar para onde me levavam. O frio na barriga aumentava a sensação de não pertencimento do lugar de saída e do lugar de chegada.
    Meus pais conversavam sobre quem recomendou o colégio interno e o quanto seria bom para minha educação ter horários definidos para acordar, ir à escola, fazer dever de casa, comer, brincar e dormir. Concordavam que naquele momento um colégio interno era o melhor para mim. Meu medo crescia a cada palavra e o verde horizonte não me dava nem uma pista de como era o meu destino. Bois, vacas, bezerros e cavalos pastando. Riachos, montanhas e boiadeiros. Mesmo as paisagens, comuns á estrada que eu fazia com meu pai no caminho pra roça aos finais de semana, não me acalmavam.
    Pode ser por reflexo de sua própria angústia que minha mãe interrompe meu estado contemplativo e tenta tranquilizar-me, dizendo:
    -Nós só vamos conhecer o lugar, tá!?
    -Meu pai continuou:
    -Mas você vai gostar! Viu!?
    Viu o quê? Gostar do quê? Conhecer o quê?
    Tive que aproveitar a "deixa" e perguntar:
    -E seu eu não gostar?
    Talvez, fosse melhor ficar calado porque as respostas me induziram á interpretação do momento em que viviam na relação dos dois e suas intenções a respeito do Juninho, ou seja, eu.
    Meu pai pontuou:
    -Você vai gostar.
    Reforçando a castração.
    Eu sabia que ele não era meu pai biológico e que estavam em processo de separação, mas isso não diminuía o meu respeito e amor por ele. A separação configurou uma perda que me atingiu diretamente como filho. Foi como uma bomba com um marca tempo que corre lentamente, na verdade, rapidamente mas em câmera lenta.
    Com a minha percepção de tempo e espaço alterados eu buscava no verde horizonte a razão do meu medo. Foi a perder-me de vista num verde crescente e predominante, que ouvi a voz do pai me acordando para irmos à fazenda. Eu odiava acordar cedo. Ainda não gosto, principalmente por um motivo que não me atraía. Mas, ele me perguntou no dia anterior se podia me chamar e eu disse sim, então, fiquei pensando que poderia repetir e lançar um - ah, pai! Tô com preguiça! E foi aí que me lembrei da manhã tranquila da fazenda, do pão de queijo e dos biscoitos que a vó fazia no fogão a lenha. Num pulo me levantei.
    -Me espera pai que já vou.
    Nesse dia eu recebi minhas primeiras instruções de motocicleta. Ele me colocou pra pilotar, atendendo meu pedido insistente. Já na estrada pra roça, acelerei e direcionei a moto para a direita, nos colocando em cima de uma concentração de areia. Já é possível prever o que ocorreu. A moto derrapou e quase caímos. O que me rendeu algumas gargalhadas, uma chamada de atenção e uma retomada da pilotagem com a ajuda das suas pernas, maiores que as minhas, estabilizando a direção. Apesar de ele ter feito o trabalho braçal, eu fiquei com o mérito da retomada. Eu aprendi a pilotar uma moto. Um presente de pai.
    Na fazenda eu alimentei minha memória num rico ambiente de cheiros, aromas, paladares e afetos. Pela manhã eu levava uma caneca com farinha de milho pela metade, amarelinha, para o meu avô no curral. A minha avó me entregava a caneca e eu levava por um caminho cheio de bostas do gado. Algumas ainda moles e quentes. Me desviar delas significava assumir o risco de pisar nelas. O que aconteceu algumas vezes, me levando a procurar os estercos para pisar em solo firme e subir nas cercas do curral para entregar a caneca pro meu vô. Ele dizia que era forte por causa daquele hábito. E ordenhava a vaca direcionando o leite para a caneca. Depois de enchê-la com o leite que sai na hora da teta da vaca, ele bebia tudo com uma boca boa, quase num gole. Antes de me entregar a caneca, entre o penúltimo e o último gole, ele pronunciava um comentário de praxe:
    -Êh, trem bão sô!
    Isso, quando ele não me pedia pra deixar a caneca pra beber mais depois. Eu voltava pra cozinha com a sensação de dever cumprido.
    Ao voltar da fazenda para a casa na cidade, eu gostava de contar os "causos" para os meus amigos. Como o dia em que caí do cavalo e o dia da morte da novilha. O caso da novilha chocou os meninos. Dia triste pelo erro do meu avô que ao querer vender a novilha ouve do vaqueiro:
    -O sinhô num tá venu que ela tá prenha?!
    Meu avô resolve tirar a prova e diz ao vaqueiro que quem vai avaliar a "bichinha" é ele.
    -Deixa que eu tiro a prova e não venderei se ela estiver prenha. Disse.
    Ele nunca tinha feito esse procedimento. Normalmente era o vaqueiro que fazia. Assim decidido, eu me coloquei curiosamente atrás deles para ver. Já posicionados no curral, começou a introduzir o braço inteiro na vagina da novilha. Era perceptível o sofrimento. E estava demorado porque o vaqueiro falava:
    -Ande logo cum isso sinhô. A bichinha tá sufrenu!
    Ao final do parecer do meu avô, ficou entendido que a novilha não estava prenha e poderia ser sacrificada para a venda. Imagino que o dinheiro deve ter sido grandioso.
    No outro dia acordei e vi que avô entristecido na cozinha durante o café. Fui em direção ao celeiro e no caminho encontrei o vaqueiro que me informou o que ele já desconfiava. A novilha estava prenha. Chegando próximo ao celeiro a vi estendida no chão, e do seu lado um feto já formado. Tirei o chapéu, fiquei olhando fixamente para o feto durante um bom tempo e perguntei para o vaqueiro:
    - Posso ficar aqui?
Ele respondeu:
    - Sinhôzim, se ocê quer, é Craro que pode. Mas eu tenho pra mim que isso num é pro cê. Eu sentei e ele sentou-se ao meu lado.
   
A viagem para o internato
A roça
A novilha e o feto
O vaqueiro